O que é musicoterapia

O que é musicoterapia

Musicoterapia

Já aconteceu alguma situação durante sua rotina diária em que uma música começou a tocar em algum lugar e, instantaneamente, você foi levado para algum lugar do passado onde aquela música representava uma cena e/ou situação muito importante na sua vida? Talvez a música cause felicidade, calma, tristeza. O ponto é, nós sabemos e sentimos constantemente o poder da música.

Você sabia, entretanto, que a musicoterapia é uma ciência evidence-based (baseado em evidências)? Abaixo você encontrará todas as informações sobre essa profissão que muda a vida de tantas pessoas.

O que é a Musicoterapia e como ela funciona?

De acordo com Kenneth E. Bruscia (1991) – pós-doutor e professor emérito de musicoterapia na Temple University (Filadélfia) – a musicoterapia é “um processo interpessoal em que os terapeutas utilizam da música e suas facetas para ajudar pacientes a aprimorarem, restaurarem ou manter a saúde” (Maratos, Gold, Wang & Crawford, 2008).

Um pouco depois, já em 1998, Kenneth sugeriu uma definição alternativa de musicoterapia, definindo-a como “um processo sistemático de intervenção onde o terapeuta ajuda o paciente a promover sua saúde utilizando de experiências musicais e relações que desenvolvem forças dinâmicas de mudança” (Geretsegger, Elefant, Mösller & Gold, 2014).

Então quer dizer que a musicoterapia consiste simplesmente de música sendo utilizada de forma terapêutica? Bom, a perspectiva de Bruscia nos mostra que se trata de algo muito mais complexo. Não se trata de “medicina musical” (intervenções praticadas por médicos e/ou profissionais da saúde utilizando música).

Assim sendo, como funciona a musicoterapia? Afirma-se que existem 5 fatores que contribuem com a eficácia e efeitos da musicoterapia, sendo eles:

  • Modulação de Atenção

Este é o primeiro aspecto. A música tende a segurar nossa atenção e nos distrair de estímulos que podem levar a experiências negativas como ansiedade, dor, preocupação, etc. Isso pode ser uma explicação da redução de dores e ansiedade após escutar música durante procedimentos médicos, por exemplo.

  • Modulação de Emoção

Esta é o segundo aspecto/caminho da musicoterapia segundo Koelsch. Estudos mostram que a música pode regular a atividade de certas regiões do cérebro que envolvem manutenção, iniciação, geração e modulação de emoções.

  • Modulação de Cognição

A música também é capaz de modular a cognição e está relacionada aos processos de memória (incluindo armazenamento, codificação, decodificação de informações e eventos relacionados à experiências musicais). A Modulação de Cognição também está envolvida com a análise da sintaxe e significado musical.

  • Modulação de Comunicação

A música não só é capaz de afetar a comunicação como ela mesma é um meio de comunicação em si. Sendo assim, a música pode desempenhar um papel significativo em relacionamentos interpessoais.

  1. Interação musical em musicoterapia, especificamente em improvisação musical, serve como linguagem não verbal e pré-verbal
  2. Ela permite pacientes verbais a ganhar acesso à experiências pré-verbais
  • Auxilia pacientes não verbais a terem a chance de se comunicar com os outros sem utilizar de palavras
  1. Permite que todas as pessoas interajam de uma forma mais emocional e voltada ao relacionamento dependendo da linguagem verbal

A interação também ocorre com a escuta de música através de um processo que tende a incluir a escolha de músicas que carregam um significado individual para o paciente. Sempre que possível, os pacientes são incentivados a refletir sobre questões pessoais relacionadas à música ou associações criadas por ela. Para pacientes com habilidades verbais, outra parte importante da musicoterapia é refletir verbalmente sobre os processos musicais.

Uma perspectiva da Psicologia

A psicologia da música é uma área de estudo relativamente nova. A musicoterapia é um campo multidisciplinar e a área da psicologia da música é uma ciência interdisciplinar inovadora que se baseia nos campos de musicologia, psicologia, sociologia, acústica, antropologia e neurologia.

Psicólogos utilizam experimentos e diagnósticos, como questionários e o paradigma da cognição para analisar o que acontece na musicoterapia.

Importantes tópicos da psicologia da música são:

  • A função da música na vida e na história da humanidade
  • A função da música na vida e na identidade de uma pessoa
  • Percepção auditiva e memória musical
  • Imagens auditivas
  • O processamento do cérebro de entradas musicais
  • A origem das habilidades musicais e o desenvolvimento das habilidades musicais
  • O significado da música e preferências musicais para a formação de identidade
  • A psicologia da performance e composição da música

Dentro do entendimento de como pessoas ouvem e percebem sons musicais, entra-se na psicoacústica (parte da psicologia da música), tratando-se da percepção da música. Outra faceta importante da psicologia da música é o entendimento do ouvido humano e como o cérebro está envolvido na apreciação e performance da música. (Wigram et al., 2002).

A psicologia da música, portanto, ao longo da vida se refere ao relacionamento de um indivíduo com a música como um processo de desenvolvimento ao longo da vida.

Uma breve história sobre a Musicoterapia

A maior organização de musicoterapia no mundo é a American Music Therapy Association (Associação Americana de Musicoterapia). Ela nos leva ao início formal da musicoterapia, datando por volta de 1789 (Greenberg, 2017). A referência mais antiga de musicoterapia que temos ciência é um artigo chamado “Musically Phisically Considered” (“Considerado Musicalmente Fisicamente”), publicado em uma revista colombiana.

Mesmo antes disso, o filósofo e matemático grego pré-socrático Pitágoras de Samos (ca. 571 a. C. ~ 570 a. C – ca. 500 a. C ~ 490 a. C) prescreveu uma variedade de escalas musicais e seus modos em função de curar inúmeras condições físicas e psicológicas.

Entretanto, talvez o relato mais antigo das propriedades medicinais da música apareça na Bíblia judaica, onde há a aparição de que um músico habilidoso chamado Davi poderia curar a depressão do rei Saul através da música:

“E sucedia que, quando o espírito mau da parte de Deus vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa, e a tocava com sua mão, então Saul sentia alívio, e se achava melhor, e o espírito mau se retirava dele” (1Sm 16:23).

Possivelmente houveram relatos anteriores relacionados à musicoterapia. Independente da precisão histórica destes textos religiosos, a música foi concebida como uma modalidade terapêutica quando tais textos foram escritos.

A musicoterapia emergiu como uma profissão de fato no século XX após a primeira e segunda guerra mundial. Inúmeros veteranos que sofreram traumas físicos e emocionais tiveram assistência nos hospitais de músicos amadores e profissionais.

O impacto da música nas respostas físicas e emocionais dos pacientes fez com que médicos e enfermeiros(as) solicitassem a contratação de músicos para os hospitais. Era cada vez mais evidente que tais músicos precisavam de treinamento prévio, e portanto, iniciou-se a educação em musicoterapia.

Pesquisa e Estudos

Para começar a discussão dentro das pesquisas relacionadas a musicoterapia, é necessário em primeiro lugar evidenciar algumas das revisões sistemáticas Cochrane (biblioteca sem fins lucrativos com mais de 37 mil voluntários ao redor de 130 países ao redor do mundo que dedicam-se a efetuarem revisões sistemáticas para melhorar a apresentação das evidências científicas relacionadas a saúde). A Cochrane mostra que a maior parte dos estudos que compuseram as revisões evidenciam os efeitos positivos da música na redução de sintomas depressivos. Entretanto, os autores sugeriram a necessidade de mais pesquisas para comprovarem tal eficácia.

Outra revisão da Cochrane analisou 10 estudos que avaliaram o efeito de intervenções de musicoterapia realizadas com crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) durante períodos que variam de uma semana a sete meses.

Indivíduos com TEA tendem a possuir prejuízos na interação e comunicação social. Entretanto, a musicoterapia fornece um meio de comunicação e expressão através das experiências musicais e das relações que se desenvolvem através delas.

De acordo com Geretsegger e pesquisadores da sua equipe (2014), houve a descoberta de que no âmbito da interação social no contexto da terapia, a musicoterapia estava associada a melhorias nas habilidades comunicativas não verbais, habilidades de comunicação verbal, comportamento inicial e reciprocidade social emocional de indivíduos com TEA. Não obstante, a musicoterapia mostrou eficácia em promover adaptação social e qualidade da relação entre pais e filhos.

Em outros estudos, Klassen e pesquisadores da equipe (2008) analisaram 19 ensaios clínicos randomizados e descobriram que a musicoterapia reduzia significativamente a ansiedade e a dor em crianças submetidas a procedimentos médicos e odontológicos.

Gerdner e Swanson (1993) analisaram os efeitos a música individualizada em cinco pacientes idosos diagnosticados com demência em decorrência da doença de Alzheimer. Os pacientes residiam em uma instituição de longa permanência e estavam confusos e agitados. Os resultados do estudo, tanto de imediato quanto os residuais após uma hora de intervenção, mostraram que a música individualizada é uma abordagem alternativa para o manejo da agitação em pacientes idosos confusos.

Um estudo conduzido por Forsblom e equipe, junto a enfermeiros profissionais, direcionaram musicoterapia para pacientes que sofreram de AVC para verificar o papel terapêutico da audição de música na reabilitação desses casos. A descoberta feita mostra que a escuta musical pode ser usada para ajudar os pacientes a relaxar, melhorar o humor e permitir a ativação mental e física durante os estágios iniciais da recuperação do AVC. A escuta musical, portanto, foi descrita como uma “ferramenta de reabilitação participativa”.

Outro estudo publicado em 2001 por Blood e Zatorre, mostra que a música modula a atividade da amígdala. Isto é, utilizando de técnicas de imagem cerebral, os pesquisadores tocaram para os participantes uma parte de suas músicas favoritas para induzir uma experiência extremamente prazerosa, descrita como “arrepios”.

Na condição de controle, os participantes ouviram a música favorita de outro participante. A intensidade dos “calafrios” experimentados pelos participantes correlacionou-se com aumentos no fluxo sanguíneo cerebral regional em áreas cerebrais que se acredita estarem envolvidas em recompensa e emoção. Este estudo apoia o argumento de que a música pode induzir emoções “reais’, pois as regiões do cérebro para processamento emocional foram moduladas pela música.

Os diferentes tipos e métodos de musicoterapia

A terapia baseada em música é baseada em dois métodos fundamentais – o método “receptivo” de audição e o método “ativo”, baseado na reprodução de instrumentos musicais (Guetin, Portet, Picot, Pommè, Messaoudi & Djabelkir, et al., 2009).

Existem dois métodos receptivos. A primeira delas trata-se da musicoterapia receptiva de “relaxamento”, que é frequentemente usada no tratamento de ansiedade, depressão e distúrbios cognitivos. Já a segunda, a musicoterapia receptiva “analítica” é usada como meio para a psicoterapia “analítica”. A “medicina da música” geralmente envolve a audição passiva de músicas pré-gravadas fornecidas pelo médico pessoal.

Dentro de outros tipos de musicoterapia, existe o Método Bonny que utiliza imagens guiadas junto à música. O método foi desenvolvido por Helen Lindquist Bonny (Smith, 2018). Com a adição de música, o paciente se concentra em uma imagem usada como ponto de partida para pensar e discutir quaisquer problemas relacionados. A música desempenha um papel essencial na terapia e pode ser chamada de “co-terapeuta”. As necessidades e os objetivos individuais do paciente influenciam a música selecionada para a sessão.

O método Dalcroe Eurythmics é um método utilizado para ensinar música à alunos, que também pode ser usado como forma de terapia. Desenvolvido por Jamile Jaques-Dalcroze, esse método se concentra no ritmo, estrutura e expressão do movimento no processo de aprendizagem. Como esse método é adequado para melhorar a “consciência física”, ajuda imensamente pacientes com dificuldades motoras.

Imagina-se que Zoltàn Kodàly foi a inspiração para o desenvolvimento da filosofia Kodaly na musicoterapia, que envolve o uso de ritmo, notação, sequência e movimento para ajudar o paciente a aprender e curar-se. O método foi encontrado para melhorar a entonação, ritmo e alfabetização musical. Também há um impacto positivo na função perceptiva, formação de conceitos, habilidades motoras e desempenho de aprendizagem dentro do ambiente terapêutico.

A NMT (Neurologic Music Therapy – Terapia músico-neurológica) tem como base a neurociência. Foi desenvolvida considerando a percepção, produção de música e sua influência nas funções cerebrais e comportamentais. Ela utiliza a variação no cérebro com e sem música e manipula tal situação a ponto de evocar alterações cerebrais que afetam o paciente. Alega-se que este tipo de musicoterapia muda e desenvolve o cérebro ao envolver-se com a música. Isso implica no treinamento de respostas motoras, como bater o pé de acordo com a música, etc. A NMT, portanto, também pode ser utilizada para desenvolver habilidades motoras.

Orff-Schulwerk é uma abordagem de musicoterapia desenvolvida por Gertrude Orff quando ela percebeu que a medicina por si só não era o suficiente para crianças com atrasos e/ou deficiências no desenvolvimento. “Schulwerk” significa “trabalho escolar” em alemão, e tal termo reflete a ênfase desta abordagem na educação. O método utiliza da música para ajudar crianças a melhorarem sua capacidade de aprendizado e também destaca a importância da psicologia humanística, usando da música como maneira de melhorar a interação entre o paciente e outras pessoas.

Técnicas de Musicoterapia

Existem diferentes técnicas que envolvem paisagem sonora e musicoterapia, dentre elas:

  • Tocar bateria
  • Ouvir música ao vivo e/ou gravada
  • Aprender técnicas de relaxamento assistido por música, como relaxamento muscular progressivo ou respiração profunda
  • Canto de músicas familiares com acompanhamento ao vivo ou gravado
  • Tocar instrumentos, como percussão manual
  • Improvisar música em instrumentos de voz
  • Escrever letras de músicas
  • Escrever música para novas canções
  • Aprender a tocar um instrumento, como piano ou guitarra
  • Criar arte através da música
  • Escrever coreografias para músicas
  • Discutir a reação ou significado emocional de alguém associado a uma música ou improvisação específica

O que um musicoterapeuta faz?

Musicoterapeutas podem trabalhar em uma variedade de ambientes, incluindo escolas, hospitais, locais de serviços de saúde mental e asilos, ajudando diferentes demandas de cada paciente.

Um musicoterapeuta avalia as necessidades exclusivas e individuais de cada um, determinando as preferências musicais e um plano terapêutico personalizado para o indivíduo.

Cada musicoterapeuta faz parte de uma equipe multidisciplinar, trabalhando com outros profissionais para garantir que o tratamento funcione para o paciente atingir seus objetivos. Por exemplo, se um terapeuta estiver trabalhando fortalecimento muscular e movimento para lidar com limitações físicas, um musicoterapeuta pode incluir dança no plano terapêutico para aprimorar o tratamento do paciente de acordo com suas demandas.

Os melhores instrumentos utilizados na musicoterapia

Os terapeutas são aconselhados a seguirem suas próprias preferências, e como explicita Rachel Rambach (2016), os instrumentos as ferramentas de um musicoterapeuta e devem ser escolhidas especificamente com base nas necessidades e objetivos dos pacientes. Alguns instrumentos, entretanto, são mais populares. A companhia Muzique listou três instrumentos que, de acordo com algumas pesquisas, mostram ser mais eficazes.

O primeiro deles é o Djembe, ou tambor de mão. Um dos seus pontos fortes é que este único tambor não possui um componente melódico central, sendo assim, o paciente é livre para se expressar e se conectar com os ritmos musicais sem medo de tocar uma nota errada. O uso de um pequeno tambor também facilita a conexão entre terapeuta e paciente, permitindo que ambos estejam próximos. Outro ponto é que eles podem tocar juntos e ao mesmo tempo, o que é mais difícil de se fazer utilizando um violão, por exemplo.

Apesar disso, o violão, de acordo com a Muzique, é o principal instrumento utilizado pelos terapeutas. O fato de ser difícil de terapeuta e paciente tocarem juntos não diminui sua eficácia e importância terapêutica, já que não só é possível tocar em proximidade com o paciente como também é possível utilizar do violão para manter o controle melódico ou harmônico enquanto permite que o paciente toque. O violão também ajuda a manter o controle em um ambiente de grupo, mas também pode ser suave e relaxante.

A Muzique sugere que o piano é provavelmente o instrumento de escolha quando se trabalha com grandes grupos. Como o som de um violão pode ser abafado por outros instrumentos quando tocado com outros pacientes, o piano pode ser mais estável, mantendo-se no fundo. Entretanto, o musicoterapeuta deve estar atento à aparente barreira física entre eles e o paciente, e se possível, deixar o paciente sentado ao lado do piano.

Onde encontrar Musicoterapia?

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